quinta-feira, 4 de abril de 2019

O Lenço Dobrado


O Evangelho de João dedica alguns versos sobre o lenço e os lençóis que envolviam o corpo de Jesus no sepulcro

"Então Pedro saiu com o outro discípulo, e foram ao sepulcro. E os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais apressadamente do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. E, abaixando-se, viu no chão os lençóis; todavia não entrou. Chegou, pois, Simão Pedro, que o seguia, e entrou no sepulcro, e viu no chão os lençóis,E que o lenço, que tinha estado sobre a sua cabeça, não estava com os lençóis, mas enrolado num lugar à parte. Então entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, e viu, e creu." João 20:3-8

Qual seria a intenção de João ao descrever esses detalhes do lado de dentro do sepulcro que acolheu o Cristo, Filho de Deus, por três dias? Há algumas afirmativas de que o lenço, devidamente dobrado à parte, sobre algum canto do sepulcro, teria relação com um costume judaico entre servo e Senhor. Os senhores que cuidadosamente deixavam o lenço dobrado sobre a mesa, após refeição, estaria confirmando que voltaria, que a ceia ainda não havia sido encerrada. Porém, não há confirmação sobre esse costume judaico. Não obstante a interpretação do lenço ser revestida de fé e esperança, ela carece de embasamento.

Por todo o Evangelho e até mesmo na última ceia realizada entre Jesus e os discípulos, não vemos nenhuma referência quanto a lenço dispostos sobre à mesa. O costume, na verdade, era o de lavar as mãos em talhas com água e depois enxugá-las com um lenço que deveria ser colocado sobre a mesa, ou almofada. Lembram de Jesus na festa de noivado? Ele transformou a água das talhas em vinho. Aquela água, era para lavar as mãos, os judeus eram muito cuidadosos sobre os costumes e observavam diligentemente essas normas. Daí vem Jesus, transformando água em vinho, usando as talhas. Como a dizer que o Evangelho era Nova Vida, Alegria, não tradição ou costumes, mas liberdade com novidade de vida! Não era o exterior que deveria ser limpo, mas o interior com a lavagem do sangue do Cordeiro de Deus.

"E estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus, e em cada uma cabiam dois ou três almudes. Disse-lhes Jesus: Enchei de água essas talhas. E encheram-nas até em cima. E disse-lhes: Tirai agora, e levai ao mestre-sala. E levaram. E, logo que o mestre-sala provou a água feita vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água), chamou o mestre-sala ao esposo. E disse-lhe: Todo o homem põe primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho." João 2:6-10

Mesmo aqui, quando as talhas são citadas, não há referência ao lenço ou guardanapo usado pelos judeus. O lenço era um elemento ligado a lei judaica e também está citado no Misná, livro de tradições judaicas:" Na hora da refeição deve-se abençoar o alimento e o vinho, lavar as mãos e enxugá-la com um lenço (guardanapo)" Mishnah. Lembremos que Jesus sempre fez duras criticas à tradição que "engessava" as pessoas em insensíveis padrões, fazendo-as escravas de regras e mais regras, agindo por obrigação e não com o coração. A tradição era um fardo que ao ser carregado desobstruía a consciência pelo cumprimento de um dever, porém fazendo esquecer do valor dos gestos despretensiosos e cheios de compaixão.

Voltando ao lenço e aos lençóis deixados no sepulcro. Eles não estavam jogados de qualquer forma, mas devidamente organizados, arrumados como se alguém tivesse tido o cuidado de assim deixá-los. Estavam lá, não foram esquecidos, mas deixados para trás com propósito. A palavra grega usada para o lenço, peça menor é: "soudarion ou sudário", pedaço de pano que envolvia o rosto de Jesus,  tipo bandana. Vejam, o lenço aqui não é o mesmo usado nas refeições, mas próprio para enrolar a cabeça, este tem sido objeto de muitas especulações.

Os lençóis dispostos no sepulcro, estavam dobrados sob o chão. Sabe de algo formidável? Pedro e João creram na ressurreição de Jesus, mesmo sem vê Lo. O lenço e os lençóis eram provas suficientes de que Ele havia ressuscitado! E desmentindo a tradição do sudário,  penso que nem lenço, nem lençol guardavam as marcas de sangue delineando a fisionomia e corpo de Jesus. Ele fora ungido com óleo, limpo , toda secreção removida, nada de sangue, tudo já estava estancado. Água e sangue era a composição do corpo de Jesus, uma anatomia diferente e sobrenatural que permitia sarar de forma eficiente. Não foi permitido lhe quebrarem os ossos e isso contribui para um bom estado de conservação. E outra: como é que o sudário dito real, dispõe a imagem até mesmo dos cabelos de Jesus avolumados se a pressão do lenço enrolado  na cabeça não permite tal fato? Reconstituição? Se for, já não se valida como prova original, mas manipulada pelo homem, portanto passível de questionamentos.

"Mas, vindo a Jesus, e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas.Contudo um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água." João 19:33-34

E mais uma vez voltando ao lenço e lençóis, interpreto essa passagem do Evangelho de João, como uma evidência de que Jesus ressuscitou: não roubaram seu corpo, nem violaram o sepulcro. Que ladrão se importaria em arrumar tão bem os detalhes da vestimenta do "morto"?
O lenço e o lençol, deixados para trás, também seria uma forma de dizer que a lei havia se cumprido e agora, um novo tempo havia chegado: O Reino não era tradição, mas a Pessoa de Cristo Ressuscitada.
O lenço e o lençol, deixados para trás, eram a morte sendo vencida, a humilhação sendo esquecida.
Todo judeu, até os dias atuais, tem o corpo envolvido em lençóis de linho branco por ocasião de morte e sepultamento. Jesus, então, foi sepultado como um judeu. E ao ressuscitar e deixar lenço e lençóis cuidadosamente dobrados no sepulcro, poderíamos dizer que a lei judaica foi cuidadosamente cumprida por Jesus, mas Sua ressurreição era o fim de toda lei: Romanos 10: 4: Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê.
Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir.Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido. Mateus 5:17-18. Jesus cumpriu toda a Lei e ainda assim foi crucificado sob a acusação de blasfêmia.
Lençóis e lenço deixados no sepulcro por ocasião da ressurreição de Cristo, simbolizam também, que a Lei o envolveu em morte. O zelo pela lei, instigou os religiosos da época a perseguirem e matar Jesus, mas na ressurreição, Ele escolhe levantar e seguir em frente, deixando os motivos de Sua morte ali no sepulcro: Ele perdoa.
Enfim, Lei e graça estavam em questão por ocasião da ressurreição. Antiga e nova aliança. Passado e presente, futuro e eternidade. Podemos olhar para o sepulcro vazio de Jesus e recebermos várias lições. A exemplo de Pedro, João , o túmulo vazio, lençóis e lenços trazem a melhor de todas as notícias: Temos um Salvador e Ele vive para para todo o sempre e virá ao nosso encontro para que também vençamos a morte pelo poder da ressurreição.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Simão o Cirineu

" E constrangeram um certo Simão Cirineu, pai de Alexandre e Rufo, que por ali passava, vindo do campo, a que levasse a cruz" Marcos 15:21.

Simão Cirineu, o homem sobre o qual foi colocada a cruz de Jesus, quando de sua caminhada pela via dolorosa, era membro da colônia judaica ao norte da Ásia. Um lugar que havia sido estabelecido três séculos antes do nascimento de Cristo por Ptolomeu Lagi, que para lá transportara grande número de judeus da Palestina. Cirene, não era o sobrenome de Simão, mas uma denominação que indicava o lugar de seu nascimento, uma colônia na Líbia, localizada dentro dos limites atuais de Tunis. Um judeu africano era Simão e eles eram influentes e numerosos pelo fato de manterem uma sinagoga em Jerusalém (Atos 6:9).

Era Páscoa e Simão estava na cidade de Jerusalém para participar das cerimônias anuais no templo: a festa dos Tabernáculos, Páscoa e Pentecostes. Nessa ocasião, os homens judeus se vestiam de linho branco para participarem do sacrificio do cordeiro pascal. Se houvesse qualquer mancha que fosse na veste de qualquer homem, eles eram impedidos de entrar no templo e participar da cerimônia.

Dentro do templo, havia um altar com cerca de 2,80 metros de altura todo feito em pedra inteira, sem corte ou trabalhada, e após o sacerdote sacrificar ali o cordeiro, ele o pegava pelas pernas traseiras e com movimentos no sentido horário, girava sete vezes em torno do altar deixando o sangue cair e escorrer pelo altar. Quando o sangue já havia saído, o sacerdote pegava uma planta chamada hissopo (tipo esponja), passava sobre o sangue e depois sacudia sobre os homens que estavam presentes para que recebessem ao menos uma gota do sangue do cordeiro na veste de linho branco, e quando isso acontecia, a veste passava a ser um troféu para a vida do judeu que viajava quilômetros para receber uma gotinha que fosse.

Simão era um desses judeus que havia saído do campo, fora dos limites da cidade, para ir ao templo receber as gotas do sangue do cordeiro pascal. Imagino que não andava vestido de linho branco pela cidade para não sujar a veste e ser proibido de entrar no templo, mas deveria guardá-la em alguma bolsa para vestir minutos antes da cerimônia começar. E Simão ia a passos seguros em seu caminho quando é interceptado por soldados romanos que "o constrangem" a levar a cruz de Jesus: "Ei, você ai, ajude-o a carregar a cruz porque ele está muito cansado e precisamos enxugar um pouco o sangue que escorre de sua face e de todo seu corpo". Simão olha bem para Jesus e apesar da face desfigurada pelas agressões, percebe ternura no olhar, mansidão e Simão não cogita dizer não, mas prontamente se inclina, e encostando o corpo em Jesus ensanguentado carrega com Ele a cruz.
Simão Cirineu, cujo objetivo era participar da cerimônia no templo de Jerusalém, para receber uma gotinha de sangue do cordeiro pascal, agora estava ali, juntinho ao Cordeiro de Deus que tirava o pecado do mundo através do sacrifício em favor da humanidade. Seu sangue  precioso de Filho de 

Deus, derramado no centro da terra (Jerusalém), para curar a humanidade, também escorria sobre a pele negra de Simão, o Cirineu. A Bíblia não diz quantos minutos durou a caminhada de Simão junto a Jesus, mas imagino que Jesus deva ter dito a Simão: "Não temas porque hoje você não recebeu apenas uma gota de sangue do cordeiro, mas recebeu a vida do Cordeiro em si mesmo. Eu Sou o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, crê Simão e serás salvo".

O Cirineu creu, saiu dali correndo, cambaleando, em prantos e foi direito para casa. Chegando em casa,seu troféu já não seria a veste de linho branco, gotejada de sangue, mas a salvação eterna dada pelo Cordeiro de Deus! E Simão reúne a família e fala de como aquele acontecimento do dia estava encravado dentro dele, revirando seu intimo e ele já não seria mais um judeu praticante, mas um cristão, nascido de novo. Toda a família de Simão foi impactada por seu testemunho. Em atos dos apóstolos, vemos o relato de que seus filhos e sua esposa fizeram parte da igreja primitiva: Rufo, Alexandre e a sua mãe:

"Saudai a Rufo, a sua mãe e a minha" Romanos 16:13O. O outro filho do Cirineu, chamado Alexandre, parece ter sido alguém que se desviou do Evangelho. Paulo por duas vezes cita Alexandre:"Alexandre o latoeiro, causou-me muitos males, o Senhor lhe pague segundo as suas obras" II Tm 4:14 e ainda: E entre esses foram Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a satanás para aprenderem a não blasfemar" I Tm1:20.

Foi assim, no cotidiano de Simão Cirineu, no meio da rua, que ele teve um encontro com Deus, através de Jesus Cristo. Um homem que não imaginou que poderia ter sua vida transformada por uma cruz, mas ao aceitar carregá-la, renunciando o percurso antes planejado, ele se torna um novo homem. Podemos olhar para Simão e aprender com seu gesto. Que Deus está perto, no nosso dia a dia, que tem interesse em mudar nossa história, desde que renunciemos a todo um passado de erros e abracemos a cruz com suas dores e promessas. Simão que guardava a veste branca para receber gotinhas de sangue, havia sido lavado, mergulhado no sangue da graça, pela fé no Cordeiro.

Que a vida de cristão é de gozo, mas também de sofrimento. É de servir ao outro e ajudá-lo a viver através do altruísmo e do amor. É de vinho e também de fel, esses elementos estavam na esponja que os soldados romanos embeberam no calvário. Simão Cirineu, em sua própria casa, teve alegria e tristezas com a família. Ao tempo em que Rufo foi fiel nas convicções cristãs e Palavra de Deus, 

Alexandre foi rebelde e desobediente. Simão Cirineu era um estrangeiro em Jerusalém, chamado entre os passeantes naquele dia e Jesus tem sim um plano para aqueles que se sentem distantes, estrangeiros quanto a fé. Ele nos chama de várias maneiras e pode ser em momento de alegria ou de dor (foi o meu caso), mas tudo se converte em paz interior. A maior lição dada com o episódio de Simão, é o do chamado e do servir através da fé e da confissão em Jesus como Senhor e Salvador.